Venho a partir de hoje
discutir o que ocorrerá após a Copa do Mundo em Cuiabá e no Estado de Mato
Grosso. Embriagados pelo som das obras ninguém se pergunta e depois? Tem curso
de inglês para atender turista, tem isso e aquilo. Mas quanto tempo isso
perdurará? E depois? No alarde da construção de obras vieram pessoas de
diversas regiões do país. Estão cumprindo um papel fora de série, mas o serviço
se encerra quando muito em 2014. Será que o volume de obras será capaz de
absorver essa quantidade pessoas? Retornarão para seus estados de origem?
Muitos constituíram famílias e precisarão de novos empregos. Não se pense
apenas em obras. O boom imobiliário tornou o negócio de aluguel muito rentável.
O preço subiu. Está estratosférico. Na economia em crescimento existem picos e,
sem a pretensão de ser visionário, me parece que já foi atingido. Isso
significa que alguns setores depois da Copa de 2014 passarão por um
desaquecimento. O lado bom disso é a queda nos preços. O lado ruim é que junto
com isso problemas sociais podem ser agravados. É curiosa a omissão do Poder
Público Municipal de Cuiabá, principalmente, já que é o principal beneficiário.
Nesse ínterim, pouco ou nada fez. Essa letargia ou incompetência pode
refletir-se no futuro em problemas comuns ás cidades que não se prepararam
adequadamente para o pós grandes eventos. O fluxo de pessoas se intensifica, a
renda cai e atividades informais – muitas ilícitas – se transformam no meio de
sobrevida das pessoas mais vulneráveis. Os ricos irão reclamar da violência,
enquanto a classe de trabalhadores, de emprego e oportunidades. Os primeiros
contratarão sistema de vigilância com câmeras, muros altos, segurança
particular e serão protegidos em suas “mansões-prisões”, enquanto os mais fragilizados
economicamente restará “fazer vistas grossas” e estabelecer “política de boa
vizinhança” com aqueles que por algum motivo estão situados à margem. Os
setores da economia mais organizados já estão preocupados com o pós Copa, mas,
a grande maioria movida por sentimentos diversos e alimentada pela propaganda
oficial, apenas conta os dias para que o grande evento aconteça. São estes
últimos, porém, aqueles que mais necessitam de proteção e alcance de programas
e projetos voltados a geração de oportunidade e renda, o que pode ser
facilitado através da própria utilização dos espaços construídos, dentro de uma
perspectiva de inserção deles como instrumentos de melhoria da qualidade de
vida, com sua socialização e não a mera privatização e transferência da responsabilidade.
A Copa ainda não aconteceu e quantas praças estão abandonadas ou sem
utilização? Quantas quadras poliesportivas? Ginásio de esportes ou
mini-estádio? Agora seria o momento de estarem tendo uma utilização intensa. A
Copa está batendo à porta e a frota de ônibus, os pontos continuam com os
mesmos problemas: superlotação, inadequados, inacessíveis. A Copa ainda nem
aconteceu e não conseguimos apresentar uma solução ao crescimento do consumo de
álcool, fumo e que serão também a porta de entrada para as drogas. Sem qualquer
ufanismo, o momento atual é de grandes investimentos, mas, já se aproxima o
nível de saturação e apenas com discussão, planejamento e participação popular
poderemos enfrentar os dilemas que se avizinham.